segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Tomo um sopro de brisa, confio no vento e me entrego, mas volto ao porto.
Tomo um vento de maré, confio nas ondas, mas volto ao porto.
Ouço a gaivota ao longe, confio no canto, mas volto ao porto.
Ouço o apito do navio, confio no estrondo, mas volto ao porto.


Ancoro-me nas lembranças que não consigo retingir num papel.
Ancoro-me cravando o peso no solo do fundo do mar.
Onde as águas me representam mulher, sereia e forte.
Onde as águas me fincam no chão e só consigo dar voltas em torno deste lugar.

E se eu tirar a âncora de lá? Para onde eu vou?
Nunca saí deste perímetro, ou já saí e não me lembro mais como era.
Nunca saí deste ponto, ou já saí e temo porque acabou.
Já saí do hábito, foi bom, mas não me lembro como é que se faz.

Sei que se parece com o despertar e a força que se tem que fazer para sair debaixo do cobertor de algodão.

O porto sou eu.
Só me falta ele ser seguro.
Certas demolições têm-no tornado.

terça-feira, 12 de abril de 2011

Chá Verde


Ganho um céu de rosas despetaladas
Tenho poeira de sonhos descridos
Eu sou como poeira na estrada
Alçada pelo vento pré-tempestivo

Pó, um grãozinho de areia ínfimo
Mas dentro de mim tenho a grandeza
De um universo tão multi e íntimo
Que até me despensa a certeza

De que seja possível
De que seja cabível
De que estou ao nível
De que será infalível

É ca fé que eu tomo
É ca fé que eu preparo
É ca fé que me tira o sono
É ca fé que me amparo

Para crer nos sonhos de poeira
Novamente virando canteiro
Para que as pétalas em roseira
Se fixem fora do antigo cativeiro

Poeira ao vento
Poeira ao vento
Poeira ao vento
Poeira ao vento

Distância


Aos cantos do mundo escrevi
Aos mundos que escrevi, cantei
Um grito, um sussurro, um sopro de lágrima
Alfabetizei-me com os seus sinais
Criei muros, ergui paredes intelectuais
que te levavam para longe e você
carregava consigo a minha paz...

Não por vontade sua, eu sei.
As razões foram minhas.
A crítica da razão impura.
Você tem razão:
A razão de eu ser assim não me dá razão
de ir por ali, longe, longe,
negando, negando, negando até afirmar.

Eu sequer me rendia a dar graças
À sua pessoa.
Tão multi-persona.
O que importa?
Se eu me embebia era de sua essência,
A sua alegre presença
Que me acordava as manhãs
De cores claras, tonificadas clarezas de
manhãs com línguas de mariposa na cabeça
e borboletas azuis e branco no estômago.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

A menina e o gato.


Todos os dias há um encontro entre uma menina e um gato.
...
Gato:_ Pobre menina, com essa cara meio sonsa, vem aqui escrever versos no seu caderno. Quando menor, seus pais lhe amarravam a mão esquerda para que se tornasse direita. É canhota, pela pressão da vida tornou-se ambidestra, mas o esforço para escrever com a mão direita a impede de fazer da escrita algo que corporifique as subjeções.
E então eu me questiono. O que serão de seus versos? Penso que ela terá pobres poemas confusos. O que seus amiguinhos sonetos vão dizer na escola? Que ele foi escrito pela mão esquerda! Senhor, é muita pressão para uma lírica!
O que ele vai dizer quando lhe perguntarem onde estão as rimas? As metáforas? E a caligrafia, meu Deus, não é caligrafia que se preze. Chacota diária vai ser pela metrificação irregular.
Racionalidade, veja lá! Infelizmente o mundo é assim, minha querida.

Menina:_ Ohn... pobre gatinho, vem aqui procurar ervinhas alucinógenas. Deve ser duro viver na realidade de gato o tempo todo. Come, dorme, se lambe, um dia vomita uma bola de pelos. Me olha com cara de indiferença, mas vem se esfregar nas minhas mãos. Gatinho, deve ser tão feliz, assim, loucão de ervinha pra gato, ri àtoa, não deve se preocupar com nada na vida. Totalmente entregue aos instintos de gatinho e é por isso que você entende a minha dor. Sabe, gatinho... um dia eu ainda leio os meus poemas pra você.

...

E todos os dias eles dormem pensando que vivenciam a vida um do outro quase que interinamente.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Boneco de pano

Senta aqui na minha mão, boneco de pano.
Aproveite para olhar a linha da minha vida.
Bem debaixo da sua bunda, assim.. à esquerda.
Veja que meus traços são fortes.
Que minha pele é áspera, que minhas cutículas
São ressecadas e me machucam as unhas.
Não tenho calos, mas não é difícil de fazê-los.

Senta aqui no meu ombro, boneco de pano.
Aproveite para olhar dentro do meu ouvido.
Bem ao seu lado à altura da sua cabeça.
Veja que daí não se pode ver o meu cérebro.
Que meus tímpanos ressoam quando você grita.
Que há cera que me atrapalha ouvir.
Não tenho cravos, mas se tivesse os tiraria.

Senta aqui no meu peito, boneco de pano.
Aproveite para sentir meu coração batendo.
Bem debaixo da sua bunda, ao lado do meu seio esquerdo.
Sinta que ele reverbera em seu corpo.
Que ele tem um ritmo comum, nada muito frenético.
Que o pulsar te faz se apoiar em meus seios.
Não tenho taquicardia, mas meu coração bate forte.

Agora que você sabe da geografia do meu corpo, boneco de pano.
Começa a olhar para a minha alma.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Yes, baby.


Há um medo nas pessoas, há um estranho incômodo quando elas começam a se dar conta de que estão felizes demais. É certa uma tendência física, aquela força que puxa as coisas para a terra, qual é mesmo o nome?
- Gravidade.
- Isso. Gravidade. E começo a suspeitar que a palavra grave, para conflitos sérios tenha começado a se fazer usar para estes fins. "Fulano está eufórico demais, não acha? Isso é grave".
Não, não venho aqui defender que a euforia tenha lá seu pezinho no romantismo, nosso fiel defensor da loucura, da sentimental em detrimento da razão, a maioria dos românticos que eu li eram bem depressivos e nem venho colocar que a euforia é alguma patologia que a psicanálise adora diagnosticar para coisas muito simples.
Venho por aqui traçar, esboçar, ou melhor, fazer um croqui literário do que o indivíduo contemporâneo tendencia em suas vidas.
Corremos feito loucos, buscamos a felicidade numa maratona de trabalho, esforço, força salário para aumentarmos incansávelmente nosso IDH individual. Índice de Desenvolvimento Humano, o cara que inventou este termo nunca ouviu falar de um movimento bem antigo, que vem desde a Antiguidade chamado Humanismo. Ele vem acoplado com expressões tais como fugere urben, carpe diem, aureos amenos.
Não, meus queridos, não há como fugir desta máquina de stress, não há como aproveitarmos o dia, não há como elevarmos a alma nessa bolha caótica.
Mas olha só que tendenciosa, eu planejando falar de felicidade e fuga da gravidade sendo tão pessimista, ridícula!!

Ok, já que fiz a introdução racional de praxe para que não me julguem romantiquinha demais, lá vamos nós, ao lirismo que me permito, se me dão licença:

Acordei, senti o cheiro de cabelo lavado no dia anterior
Meu Deus, que ser mais lindo, que pessoa mais encantadora
Como uma manhã tão cinza pode ficar tão linda?
O medo tinha ido embora, aquela inhaca, que eu não sabia o que era, fora identificada e tratada.
Era o receio de que desse tudo errado, de perder cada sorriso conquistado, cada bafinho de manhã, cada carinhosinho, cada olhar de tirar o fôlego porque há amor demais.
Sentia-me naqueles comerciais bem clichês de margarina, em nuvens com um coralzinho de anjos cantando ao lado.
O abraço não era mais o de segurar, como reflexo corporal de mostrar que não quer perder.
Era abraço, de sim, sim, sim... está aqui, acontece e é maravilhoso, eu posso desfrutar, me é permitido!! sim!!
Eu me permito.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Mara Lobo



Vermelhas estão minhas mãos
Manchadas de sangue negro.
Sou o escândalo, aborto, abutre
De meu próprio partido.
Porque não é de mimtoda
Esta teo-rização apraticada.

Convido você a vestir as caças jeans genuinamente operárias.
Convido você, nobre cocote da Oscar Freire
A meter-se nas fábricas
A ter a náusea dos movimentos repetitivos
A perder os dedos nas máquinas

Ei, capa da Play Boy!
Eu sou a mulher nua cheia de ematomas das manchetes obituárias,
eu sou a mulher despida dos arquivos policiais,
Eu sou a mulher pelada
Por trás dos microfones do palanques, por trás das grades, da ferragem, da ferrugem.
Minha fragilidade morde, meu amor multiplica, meu pecado não existe.
Para silenciar: meu grito.
Para tornar evidente: meu silêncio.
Não! Vá para longe com esta sua verborragia
Esta mesmice de perguntas insólitas.
Por que tantas perguntas? Justo hoje?
O que eu tenho para dizer eu já fiz
Antes mesmo que se tornasse palavra.

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Eu o amo, mas não amo o objeto
amo o amor que tenho por ele
amo o substantivo abstrato
sim, este tipo de abstração me atrai
a abstração dos sujeitos envolvidos

Não, se pensas por um acaso que me sujeito,
te enganas profundamente
pois não tenho a necessidade de assinar em baixo
deixo ali minhas ações como obra a ser discutida pela posteridade

e o meu amor... sim, ele continua
destinado às relações e suas intensidades
meu mais novo amante?
Aquele casal à sua esquerda.
Escândalo?
Seria se eu omitisse, não acha?